Aos 23 anos, estudante negro de escola pública de Santana de Parnaíba vence o medo, a exaustão e a falta de tempo até garantir a vaga mais sonhada do país
O grito saiu sem filtro, no meio do expediente, do jeito mais verdadeiro possível: “Passeeeeeei!”.
Foi assim que Gabriel Pereira Viana, de 23 anos, descobriu que tinha sido aprovado no curso de Medicina da USP, uma das seleções mais concorridas do Brasil.
Natural de Santana de Parnaíba-SP, Gabriel carrega uma história que mistura pressão, coragem e uma rotina que muita gente conhece de perto: trabalhar para se manter e estudar com o tempo que sobra.
“Eu vim de escola pública minha vida inteira e tudo o que consegui foi por bolsa ou por trabalho”, contou.
De Engenharia Naval ao sonho de Medicina
Antes da Medicina, Gabriel já tinha vivido outra grande virada. Em 2020, ele chegou a passar na Engenharia Naval na USP, mas acabou deixando o curso para trabalhar. Com o tempo, veio a dúvida, a busca por propósito e a vontade de se encontrar em algo que fizesse sentido.
“Eu queria algo que eu pudesse, de fato, ajudar as pessoas”, explicou.
A vontade existia. O problema era o medo. Medo de não ser bom o suficiente, de não aguentar o ritmo, de não ter tempo, de não ter dinheiro. Mesmo assim, ele começou.
Trabalho integral e estudo à noite: “Eu só tinha 4 horas por dia”
A preparação foi feita do jeito que deu. Sem romantização.
Enquanto encarava uma escala 6×1, Gabriel estudava à noite em cursinho online. Em 2024, chegou perto: passou para a segunda fase, mas não conseguiu a vaga. O desânimo bateu. Só que ele continuou.
Em 2025, a chance que parecia impossível apareceu: uma bolsa 100% em um cursinho particular e online. A partir daí, o foco virou sobrevivência com meta: continuar firme até dar certo.
“Eu estava bem desacreditado… achei que meu preparo não estava tão refinado quanto o de outras pessoas que passam em medicina.”
Mesmo assim, ele foi.
O preço da aprovação: sono, alimentação e vida social
Quando questionado sobre o maior sacrifício, Gabriel não hesita:
“O maior sacrifício foi em qualidade de vida. Sono, alimentação… tudo isso deixei de lado por ter que estudar.”
O desafio era escolher entre o que era urgente e o que era necessário. Em vários momentos, ele precisou trocar convivência por apostila, descanso por conteúdo, saúde mental por resiliência.
“Eu tive que escolher: ter tempo com as pessoas da minha vida ou estudar. Viver bem ou estudar. Dormir ou estudar.”
E, no meio disso tudo, ainda havia a pressão interna, aquela que ninguém vê.
“Vários dias eu chorei e sofri sozinho.”
A luta é individual, mas ninguém vence sozinho
Mesmo afirmando que essa batalha é, muitas vezes, solitária, Gabriel faz questão de reconhecer quem segurou sua mão quando ele mesmo soltou.
Ele destaca o apoio da mãe, Elaine, e do parceiro, Flavio, como forças essenciais para não desistir. E também cita amigos do trabalho e pessoas próximas que foram combustível nos dias ruins.
“Eles me apoiaram em diversos momentos que eu desacreditei de mim.”
Quando o resultado saiu, ele estava trabalhando. E foi justamente ali, cercado de gente que viu a luta de perto, que veio o grito, a emoção e o registro.
“Eu gravei esse momento pra deixar registrado como é a sensação de quem conquista esse lugar na USP.”
“Não é luxo. É mudança de vida”
Para Gabriel, ser aprovado não é apenas uma vitória individual. É símbolo. É resposta.
Ele lembra que chegou perto de desistir, inclusive neste ano, porque sentia que não teria condições de continuar tentando caso não desse certo.
“Sou de classe baixa. Eu não podia me dar ao luxo de tentar mais uma vez.”
O pensamento que o fez continuar foi direto e forte:
“Tenho que mudar de vida. Viver assim não é viver. É sobreviver… e muito mal, ainda por cima.”
Uma mensagem pra quem acha que a USP não é pra ele
Gabriel também faz questão de jogar luz em um ponto que muita gente ainda desconhece: a USP é pública.
“Tem gente que nem sabe que a USP é pública… mas ela é nossa. E é nosso direito estar lá.”
E completa com a frase que resume a própria caminhada:
“Todos são capazes!”
Ele acredita que Santana de Parnaíba forma gente forte e preparada, e cita com carinho escolas como a Etec Ermelinda e o Colégio Carlos Alberto como parte dessa construção.
Vocação antiga, propósito real
Quando criança, diz que todo mundo afirmava que ele seria médico. Na adolescência, ele resistiu. Queria ser astrônomo, mudou de ideia, rejeitou Medicina por teimosia. Até que o tempo mostrou o que era vocação de verdade.
A pandemia também pesou nessa decisão. E uma história dentro de casa deixou tudo ainda mais pessoal: o irmão de Gabriel tem uma condição rara chamada Hepatite Auto Imune.
“Isso me faz querer ajudar de perto… entender o que acontece.”
Agora, ele quer ser mais do que um aprovado. Quer ser referência.
“Eu quero que minha família me veja como um porto seguro no futuro. Que sintam orgulho e saibam que podem confiar em mim.”
E a comemoração? Do jeitinho dele
Depois de tanta renúncia, tanta pressão e tanto medo vencido, Gabriel já sabe o que quer fazer primeiro:
“Agora eu só quero comemorar com essas pessoas… vamos comer um japa juntos”, brincou.
E dessa vez, ele não está sonhando.
Ele está vivendo.
Porque o “passeeeeeei” dele não é só uma frase.
É um grito que representa milhares.












