Criado na zona rural, ele transformou uma infância marcada por trabalho duro em uma das histórias mais inspiradoras da segurança pública do Nordeste
Ele acordava cedo para vender leite, passava o dia estudando e, nos fins de semana, cruzava a cidade com um isopor cheio de dindim. Anos depois, aquele menino da zona rural se tornaria um dos delegados mais respeitados do Piauí. A história de Charles Pessoa é daquelas que começam simples, atravessam dificuldades e terminam como exemplo de persistência.
Filho de trabalhadores rurais, Charles estudou os primeiros anos em uma escola com apenas uma sala de aula, onde uma única professora ensinava várias séries ao mesmo tempo. Quando chegou a hora de continuar os estudos, a família quase precisou interromper o sonho por falta de recursos. A solução veio com trabalho: ele passou a vender leite diariamente para ajudar em casa e garantir a própria educação.
Mesmo ainda adolescente, já carregava uma disciplina fora do comum. Chegou a vender dezenas de litros de leite por dia e nunca teve vergonha do esforço. Pelo contrário. Aos fins de semana, completava a renda vendendo dindim pelas ruas da cidade. Em um desses dias, durante um torneio de futebol, teve quase todo o isopor roubado por um grupo de adultos. Sentado numa calçada, abalado, tomou uma decisão que levaria para a vida inteira: não voltaria pra casa sem concluir o que havia começado. Vendeu o restante e seguiu em frente.
A virada veio com a educação. Em Floriano, concluiu o ensino médio e construiu parte fundamental da formação. Um gesto de solidariedade de um educador, que ajudou a garantir sua permanência nos estudos, é lembrado por ele até hoje como divisor de águas. Dali em diante, o caminho foi traçado com foco: faculdade, concursos e entrada na segurança pública.
Já atuando como policial e depois como delegado, Charles mergulhou no estudo do crime organizado ainda no fim dos anos 2000. Passou por setores de inteligência, sistema penitenciário e operações de alto risco. Ao retornar ao Piauí como delegado, trouxe consigo anos de experiência e uma missão clara: enfrentar as facções criminosas com estratégia, conhecimento e presença constante nas ruas.
Hoje, com uma rotina marcada por madrugadas de operação, ameaças e restrições na vida pessoal, ele diz que vive por propósito. Fala em proteger famílias, impedir o aliciamento de jovens e servir à sociedade. Mas por trás do cargo e das ações de impacto, permanece o mesmo garoto que aprendeu cedo o valor do esforço.
No Piauí, muitos conhecem Charles Pessoa pelas prisões e operações. Poucos sabem que tudo começou com um isopor no braço, litros de leite na mão e uma certeza silenciosa: continuar, mesmo quando parece difícil.
Fonte: Redação









