O setor, que envolve cerca de 1 milhão de trabalhadores no país, enfrenta um cenário sombrio e desafiador

Por Marcelo Souza

O Brasil pode estar prestes a enfraquecer um dos pilares de sua agenda ambiental: a reciclagem.

Em meio à transição para o novo sistema tributário, um setor já pressionado por margens estreitas, custos crescentes e elevada informalidade passa a enfrentar um risco adicional: o aumento expressivo da carga tributária incidente sobre suas operações.

De acordo com estimativas divulgadas por agentes do setor, a tributação efetiva sobre a reciclagem pode saltar de patamares próximos a 6% para até 26,5% ao longo do período de transição da reforma tributária, previsto para se estender até 2033.

Em um segmento intensivo em mão de obra, logística e energia, esse movimento pode ser decisivo para a viabilidade econômica da atividade, com impacto direto sobre o volume efetivamente reciclado no país e, portanto, sobre o destino dos resíduos: reciclagem ou aterro.

Esse risco se torna ainda mais evidente quando se compreende que “reciclagem” não é um processo único, homogêneo e simples.

Em algumas cadeias, como papel, plástico ou metais comuns, o fluxo costuma ser relativamente linear: coleta, consolidação, triagem e preparação para envio à indústria de transformação. Já em outras, como por exemplo na reciclagem de eletroeletrônicos, a lógica é distinta e significativamente mais complexa.

Antes que qualquer material se transforme em insumo industrial, os equipamentos precisam passar por processamento especializado, que envolve desmontagem, segregação, descontaminação e separação por tecnologias específicas.

Só então é possível gerar frações como ferro, alumínio, cobre e outros materiais que podem seguir para a indústria de transformação. Ao contrário do que muitos imaginam, nem todo equipamento eletrônico contém metais de alto valor econômico, essa é a exceção, não a regra.

Quando a tributação se eleva na base dessa cadeia, não se está “taxando sucata”, mas encarecendo justamente a etapa industrial que torna a reciclagem tecnicamente viável.

A base da cadeia que sustenta a reciclagem

A reciclagem no Brasil não ocorre, majoritariamente, dentro das grandes indústrias que utilizam matéria-prima reciclada. Ela começa antes, na base da cadeia: cooperativas de catadores, pequenos e médios operadores, empresas de coleta, triagem, separação, processamento e comercialização de resíduos.

Segundo o IPEA, esses agentes são responsáveis por parcela relevante da recuperação de materiais no país, mas operam sob condições econômicas frágeis, com baixa rentabilidade, informalidade persistente e pouca proteção institucional.

Trata-se de um setor intensivo em trabalho humano e logística, justamente os fatores que mais encareceram na última década.

Valorização insuficiente diante de custos crescentes

Ao longo da última década, os preços de diversos materiais recicláveis acompanharam a valorização das commodities no mercado internacional. No entanto, esse movimento não foi suficiente para compensar o aumento estrutural dos custos da reciclagem no Brasil.

Diferentemente do que ocorre em setores extrativos ou na indústria de transformação, a reciclagem não captura integralmente a valorização das commodities. O reciclador não vende uma commodity pronta, mas um material que precisou ser recuperado, descontaminado, separado e tecnicamente preparado antes de gerar qualquer valor econômico.

Parte relevante do valor potencial se perde ao longo do processo, seja por rejeitos inevitáveis, perdas de eficiência, descarte de frações sem valor comercial ou exigências ambientais e operacionais.

Em cadeias mais complexas, como a de eletroeletrônicos, esse efeito é ainda mais evidente. Uma parcela significativa do material processado não gera receita direta, mas é indispensável para viabilizar a recuperação das frações de maior valor. Assim, mesmo em períodos de valorização internacional dos metais, às margens do reciclador permanecem comprimidas.

Custos em escalada: o verdadeiro fator de pressão

Enquanto a valorização dos materiais foi limitada em sua capacidade de gerar margem, os custos operacionais essenciais da reciclagem cresceram de forma consistente e estrutural, comprimindo ainda mais a rentabilidade do setor.

Por se tratar de uma atividade intensiva em trabalho humano, especialmente nas etapas de triagem, desmontagem e processamento, a reciclagem reflete de forma direta as transformações do mercado de trabalho. A valorização do salário mínimo – que passou de R$ 788 em 2015 para R$ 1.518 em 2025 – representa um avanço social importante, mas também evidencia a fragilidade de um modelo produtivo que ainda carece de mecanismos econômicos e institucionais capazes de internalizar adequadamente os custos do serviço ambiental prestado.

O diesel, elemento central da logística de coleta e transporte de resíduos, acumulou altas superiores a 100% no período, elevando de forma estrutural o custo da movimentação de materiais de baixo valor agregado e longas distâncias.

A energia elétrica industrial também se tornou mais onerosa e volátil, pressionada por reajustes tarifários, bandeiras e custos de demanda. Para operações que utilizam linhas de separação, trituração, moagem e beneficiamento, a energia deixou de ser um custo marginal para se tornar um fator crítico de competitividade.

Por fim, o custo de capital e de equipamentos também disparou. O preço de caminhões, ativos essenciais para coleta, transporte e logística interna aumentou de forma expressiva na última década, pressionado por inflação, exigências regulatórias, variação cambial e encarecimento do crédito. Isso elevou barreiras de entrada e dificultou a renovação de frota, especialmente para pequenos e médios operadores.

O resultado dessa combinação é claro: mesmo com alguma valorização dos materiais, a margem real da reciclagem encolheu, deixando o setor ainda mais vulnerável a qualquer aumento adicional de carga tributária.

O papel do ICMS diferido e a ruptura do equilíbrio

Em estados como São Paulo, a reciclagem historicamente se apoiou em mecanismos como o diferimento do ICMS, que evitam a incidência plena do imposto a cada etapa da cadeia e reduzem o estrangulamento de caixa em operações de baixa margem. Esse modelo, embora imperfeito, permitiu a sobrevivência de milhares de pequenos operadores e cooperativas.

A reforma tributária rompe esse equilíbrio ao substituir o sistema atual por um IVA dual, composto por CBS (federal) e IBS (estadual e municipal). Durante o período de transição, haverá convivência entre tributos antigos e novos, elevando a complexidade operacional e o custo financeiro da atividade.

Na prática, justamente quando sua capacidade de absorver custos adicionais é mínima. O resultado potencial é um aumento abrupto da carga tributária efetiva, estimado por agentes do mercado em até 26,5%.

O custo de um retrocesso silencioso

A reciclagem só existe se for economicamente viável. Sem margem, não há investimento. Sem investimento, não há tecnologia, formalização nem expansão da capacidade instalada.

O impacto não se limita ao setor: menos reciclagem significa mais resíduos destinados a aterros, maior pressão ambiental, custos adicionais para municípios e o enfraquecimento de metas climáticas assumidas pelo país.

A reforma tributária ainda pode, e deve, ser calibrada. Reconhecer a reciclagem como atividade estratégica não é criar privilégios, mas alinhar política econômica, ambiental e social.

Ignorar essa realidade pode levar o Brasil a desmontar, de forma silenciosa, um setor essencial para qualquer estratégia séria de desenvolvimento sustentável.